20 anos de Sem Cerimónias por Keso

[TEXTO] Keso [FOTO] André Henriques [ILUSTRAÇÃO] Dialogue

1997, 1998 e 1999. Estes são os anos mais importantes no que toca à minha paixão e certeza pelo rap e pelo hip hop português. Correspondem aos anos do lançamento do Sem CerimóniasMandachuva e do filme Zona J. Foram também os anos em que comecei a pintar graffiti e a tentar escrever umas rimas. Foram os anos em que comecei a contactar com pessoal da cultura hip hop e a começar, aos poucos, a fazer parte dela.

Éramos muito poucos, mesmo. Mas já se conseguia encontrar indícios da cultura com alguma facilidade em revistas, lojas ou televisão. Imitar o que víamos nelas em círculos de amigos muito fechados e escassos era algo que nos fazia sentir diferentes e genuínos em relação ao resto dos miúdos da nossa idade. Numa altura em que a “pastilha” do techno e o cabelo do Kurt Cobain eram padrões de rebeldia comuns, nós fomos mais longe: começámos a riscar os nossos nomes nas paredes e a usar as calças largas ao “fundo do cu”.

 


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Estes foram os anos da experimentação. Foram os anos da identificação e da procura incessante de razões para fazermos parte de algo muito maior do que a associação de estudantes de uma escola. Foram os anos da afirmação de uma cultura, de um movimento que apontava um futuro prometedor e duradouro. E assim foi. Vinte anos depois ainda o vivemos.

 


[O primeiro contacto com o SC]

Conheci os Mind da Gap através do Virtus um ano depois de o disco sair. Ele tinha uma cópia do Sem Cerimónias. Já conhecia bem o disco e passou-me para que eu pudesse escutar. Julgo que já era uma banda importante para ele, pois conhecia alguém que os conhecia e eram uma grande influência para ele até no modo como se vestia. Nessa altura também era habitual eu pedir-lhe cenas emprestadas. Era habitual partilharmos roupa, discos e até um skate, o único skate que ele tinha, e que eu acabei por partir ao meio numa manobra mais atrevida. Por isso, quando ele me emprestou o Sem Cerimónias, lembro-me perfeitamente do cuidado extremo que tive para não o partir ou riscar. Fiz uma cópia para K7, escutei vezes sem conta e em dias já estávamos a rappar as músicas em uníssono. Havia algo de refrescante e sagrado naquelas letras, maduras, inteligentes, que ambicionávamos que se tornassem nossas um dia.

Relembro até uma vez em que eu estava num autocarro com uns amigos suíços, em Genebra (Setembro 1999), e dei o rap do “Falsos amigos”. Eles ficaram meio estúpidos por perceberem que a língua materna deles, a maior parte luso-descendentes, soava melhor em rap do que o próprio francês.

 


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[A aura de escrito sagrado]

Como referia anteriormente, o Sem Cerimónias acontece numa altura de profundo desconhecimento do rap e hip hop por parte da generalidade das pessoas. O interesse que a cultura suscitava em torno dos jovens ainda era muito pouco e praticamente nulo entre os adultos. A sub-cultura aparecia como fenómeno internacional, como coisa de negros e delinquentes, como produto leviano e desvalorizado importado das metrópoles de outro planeta, planeta esse onde a portugalidade em nada cabia ou se identificava. Aqui, neste ponto, é onde entra a magnitude do SC e dos Mind da Gap.

A meu ver, a aura deste disco estará para sempre ligada a uma ideia de escrito antigo, de puritanismo, de génese de um movimento português de rap escrito na nossa língua, vivido no nosso âmbito politico e social e de refinada ironia tripeira. Até a própria capa, as fotografias e o design do disco ganharam uma espécie de vida própria e de simbolismo de algo altamente acima do que era e foi feito. (Compare-se a simplicidade do Rapública ou a plasticidade NY do Mandachuva)

Aqueles seres, Ace, Presto e C-Real, permaneceram no meu imaginário como espécies tripeiras “divinas”, tinham um visual completamente arrebatador e moderno, simples mas altamente contemporâneo, jamais visto por mim a caminhar nesta cidade. E assim continuou até explodirem com a A Verdade, aquele que para mim é o grande disco dos MDG, o mais importante impulsionador da cultura no Porto e do qual eu tenho matéria para escrever um livro sobre o assunto. Avante.

 


[O engenho da produção]

A produção do Serial é, sem dúvida, a maior dádiva dos Mind da Gap. Por muitos anos, a par de Sam The Kid, este foi (e é) um dos melhores produtores nacionais, se não o melhor. Sabendo então dos modos como foram produzidos todos os instrumentais do SC (que poderão ler na entrevista com o próprio), a coisa ainda ganha mais dimensão. Não existe um beat no SC que não me soe a “absolutamente espectacular”. Talvez tenha sido o tempo a abafar a noção de comparação, mas, se este disco fosse lançado hoje em versão instrumental, eu continuaria adorar.

Aquilo que a meu ver merece mais destaque na produção do C-real é a forma como ele conjuga os drums (os selecciona): a forma como ele os toca não é a mais groovy, mas preenche de tal forma o beat que o sample parece significar apenas 10% da produção. O que não é verdade, pois o C-real é um mestre de bom gosto no que sampla.

 


[A escrita e os temas]

O Ace e Presto eram jovens quando escreveram este disco, tão jovens quanto os jovens que ainda hoje fazem discos, mas os recursos eram tão escassos e diferentes. A gramática parecia mesmo a melhor companheira destes, pelo menos a mais ostensiva até então, e não nos podemos esquecer que eles não viviam na era da Internet. Pelo menos não foram produto dela. Não tinham acesso a tanta informação, mas pareciam ter acesso pleno ao que de mais havia de sábio: os provérbios e os livros.

Os temas do disco que eu mais admiro, um pouco em comparação a um disco que eu gosto muito, o dos micro (Microestática), são os temas baseados na Ética e na Dádiva da vida. A “Falsos amigos” e “O Mundo É Teu” fizeram as minhas delícias. Hoje em dia, estes temas podem parecer muito banais e até enfadonhos, mas o seu conteúdo na minha adolescência era altamente raro e subversivo.

 


[O que fica]

Tenho uma cópia do SC. Preservo-a assim como preservo a maior parte dos discos de rap português, embora tenha de ter um pouco mais de cuidado. Não digo que seja um disco intemporal como sinto em alguns casos, raros, mas tenho a certeza que é um disco que marca uma geração. É um registo muito simples, mas completo da mentalidade do jovem rapper português do início do século. Os meus netos, mesmo que não gostem de rap, vão adorar este disco. Vai ser muito engraçado explicar-lhes o que era o regionalismo (“NorteSul”).

 


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